O barco rasgava o véu do mar
que se disfarçava de rio
Fortes ventos me abraçaram
Ventos que empurraram o sol mais pra lá
e trouxeram as nuvens para cá,
pintaram o céu de cinza
e escureceram a água,
em um sopro só
Mudavam de direção a cada curva,
carregavam-me junto.
Ali na proa, deitei
e criei o meu sem fim
Fitas coloridas,
presas as cordas do mastro,
eram as minhas estrelas de um céu nublado
daquela quase noite
Eram sacudidas pelos ventos
que cantavam para mim
músicas de um destino à deriva.
O céu se desfez em degradê,
o espelho do mar se perdeu
As luzes já não eram de Marujá
A brisa levou os pescadores,
mas os ventos nunca me deixaram
E assim, ao acaso,
faço e me desfaço por aí.
Douglas Funny
De todos os meus mundos
esse é o que eu mais detesto.
Onde a desistência debruça sobre o meu peito
com o disfarce de sono pesado.
Uma tristeza mascarada me encara
enquanto a depressão estende a corda,
a espera da minha sentença.
Todos os medos sobrevoam o meu corpo,
como corvos atrás da carniça,
somente pelo fascínio de me amedrontar.
Em meu sangue ferve a mais profunda agonia,
de assistir o terror, caçoando de mim,
e as últimas gotas de esperança
são desencorajadas pela verdade.
Apenas o fim é visto no plural.
Alienado pela dor e a sangria do âncora,
desligo a TV.
Douglas Funny
Dos dias que te vi
Dos dias que te toquei
Dos dias que te beijei
Dos dias que tomamos café juntos
almoçamos juntos
e jantamos mais juntos
Dos dias que eu reclamava das panquecas
e você do meu arroz
Dos dias que tomamos chuva
e sonhávamos com um carro
Dos dias que você riu das minhas piadas
por pior que elas fossem
Dos dias que te tirei do sério
Dos dias que brigamos
os mesmos que nos reconciliamos
e os mesmos que brigamos de novo
Dos dias que dormi na sala
Dos dias que dormiu na casa dos pais
Dos dias que eu tinha que ver seus pais
Dos dias que eu te ligava
e deixava você acabar com meus créditos
Dos dias que eu falava do tempo
e você da sua roupa
Dos dias sem palavras
Dos dias da dança
Dos dias do barzinho
Dos dias dos estudos
Dos dias chatos do trabalho
Dos dias dos filmes
e dos filmes de nossos dias
Dos dias da sua Coca-Cola
Dos dias da minha cerveja
Dos dias em preto e branco
Dos dias coloridos
Dos dias que a Tv não ligava
Dos dias que você não ligava
Dos dias que eu desligava
Dos dias que eu prestava atenção
Ou te emprestava
Ou não prestava pra nada
Dos dias demorados sem você
e dos breves ao seu lado
Dos dias que queria estar longe
Dos minutos suficientes
Das horas sofridas
Do dia-a-dia
De desejos e incertezas
Da certeza de um desejo
Dos dias que te amei
e que me amou também
Dos dias que abri os olhos pra te ver
Dos dias que fecho os olhos pra te ter.
Douglas Funny
Busco a liberdade
me prendendo a correntes.
Um coração amordaçado,
mas sem deixar de amar.
Preso a superfície,
não consigo mergulhar.
Sinto a maresia
e algo a me puxar.
Não atinjo o fundo do mar do amor,
Pois um coração aprendeu a nadar.
Sente o frio dos ventos
e perde o calor do mar.
Na confusão de sentimentos,
A imagem do pôr-do-sol
perde-se no horizonte da alma.
O céu vira mar,
o mar vira céu,
paixões sem perder o ar,
o amor não se deixa levar.
A deriva,
uma correnteza pode me pegar.
A praia não vou encontrar,
no raso também não posso viver.
As ondas das emoções não cessam,
mas tempestade também não há.
De cima, posso ver mais.
Para se arriscar nas profundezas
é preciso me entregar,
deixar de bater os braços
e de uma única direção.
Egoísmo que me faz respirar.
Se o amor quer me abraçar,
que o fundo do mar venha me buscar.
Sei que uma hora vou cansar,
mas quero descobrir
o quanto consegue prender o ar.
Douglas Funny
Eu sei que já ouvi,
mas não me canso de você
e de suas histórias repetidas.
Basta começar, para saber como terminará.
Gestos gravados,
frases que já viraram jargões.
Textos mais que decorados,
porém me perco se precisar contá-los.
A sua voz faz a diferença.
Palavras ditas,
cantadas para mim.
Soam como versos,
notas em perfeita harmonia.
Prendem meus olhos
e elevam minha alma.
E você fica tão brava quando me vê assim.
Sabe que eu já não estou mais lá,
fora a escutar.
Sei de muito mais, mesmo que não tenha dito.
Mas me deixei levar por você.
Sei como começa e termina.
No meio eu me perco em você.
Douglas Funny
Eu pedi um mundo imperfeito
para que as coisas dessem errado.
Nem tudo,
pois vivo dos meus acertos.
Foi apenas uma forma de obstrução,
pedras no meu chão,
para que eu pudesse superá-la.
E lá estaria meu final feliz.
Mas meu filme não tem duas horas,
muito menos um "Feliz para sempre".
O eterno não existe no mundo que criei.
Pois bem, é imperfeito e pronto.
Entre erros e acertos,
vou me virar.
Inventei o meu mundo assim,
cheio de furos e remendos,
pelo jeito ele também não quer parar.
Espere aí.
Se nada é eterno no meu mundo,
por que procuro o meu amor?
Este era pra vida toda
e uma vida toda não existe.
Mais finais pra essa história,
não quero ver quando tiver que escolher.
Tanta vida pra viver
e eu fui inventar de escrever roteiros.
Douglas Funny
Tenho você
E você me tem
Não como posse
Tenho você do meu jeito
E você me tem do seu jeitinho
Sem delimitar, impedir ou prender
Mas eu te tenho
E você me tem.
Quantos outros querem ter alguém
Eu te tenho aqui
Do meu lado, próximo
Só não lhe digo que te tenho
Posso cortar suas asas
Você pode se sentir menos livre
E quando voa tudo fica mais belo
Vejo-te ir tão longe
Mesmo segurando sua mão
Vou junto e você nunca diz não.
Tenho muitas coisas
E algumas me têm
Não assim
Você não é coisa
E isso não é coisa que se diga
Também não digo que te tenho
Porém, acho você já sabe
Tenho você
E você me tem.
Douglas Funny